"Chego a casa, combalida, após mais um dia de trabalho.
Estou cansada. Doí-me a alma, as pernas e as costas, já não aguento mais, a saúde está a fugir de mim.
Estou tão exausta, farta de rotinas que já não endireitam nada, só entortam.
Cada vez que olho para trás vejo o tanto que pedi, e o tanto que perdi, e só penso no que fiz errado, no que não dei e onde falhei.
Tenho uma filha. Sei que não me posso perder desta realidade e deixá-la para trás sozinha. Forte sempre fui, venho de linhagens determinadas e inteiras, mas sinto-me tão cansada daquilo que sou obrigada a enfrentar todos os dias para lhe poder dar uma vida melhor, apesar de nunca me arrepender disso, porque por ela,seja ela como for, venha ela a ser aquilo que for, faço e farei qualquer coisa, até mesmo deixar de comer, para que ela coma, daria por ela a vida.
Os dias passam cada vez mais devagar para mim, com o passar dos anos, e sem saúde, só piora esta amarga sensação, e em cada novo dia, em que me levanto de manhã da minha cama para continuar neste sacrifício, só penso na minha menina, que não tem culpa de nada do que me inquieta, de nada do que faz o meu coração doer, não tem culpa das minhas falhas, nem de tudo o que vivi.
Luto, volto todos os dias a lutar, muito em parte mais por ela do que por mim, e pelas contas que todos os meses me chegam ao correio, a fervilhar por falta de pagamento, contas que pago com os olhos a lacrimejar, pensando que o faço para manter o lar onde a crio, onde a criei.
No amor, nunca tive sorte nenhuma, estou a envelhecer, e no amor nunca senti um refugio, e assim refugiei-me somente em mim.
Tudo o que me amou, me abandonou, tudo o que amei, me rejeitou, e me traiu.
E tantas voltas dei eu para tentar ganhar os jogos que a vida me levou a enfrentar, mas sempre os perdi, e aqui estou, sozinha, com a minha menina, onde no fundo sempre acabei, e sei que será perto dela que fecharei os meus olhos, porque somente ela me amou, e se tive amor, um amor inexplicável, esse amor, foi o amor da minha filha.
A minha menina que olha para a mãe como uma guerreira, como uma força indomável, como uma heroína, uma rainha, mesmo no fundo ela sabendo que o coração quente da mãe bate cada vez com mais fraqueza, e que os anos vão voando sem que nós os aproveitemos melhor, juntas.
A minha menina que vê em mim o reflexo de tudo aquilo que ela quer poder vir a ser, apesar dela sonhar ainda mais e melhor para ela, mesmo que ela saiba como as coisas estão difíceis, ela sonha, e sonha sobretudo em poder deixar-me orgulhosa e satisfeita do que ela um dia se venha a tornar, sonhando que ela seja feliz para que eu não entristeça, sonhando que a vida a ajude para que eu envelheça de uma forma despreocupada e serena....
Oh Minha menina.
É por ti que os dias sorriem mesmo que o céu decida chorar."
Andreia P.
Textos Soltos
(Continua....)